A era dos comentadores de fato feito | Por Luís Ganhão
Vivemos tempos curiosos: nunca houve tantos comentadores e, paradoxalmente, nunca se comentou tão pouco. O espaço público encheu‑se de vozes que se apresentam como analistas, mas que, à primeira pergunta mais séria, revelam o que realmente são — propagandistas com cartão de comentador.
O comentador genuíno é hoje uma espécie em vias de extinção. É aquele que hesita quando deve hesitar, que admite dúvidas, que reconhece limites. Não grita certezas; oferece interpretações. Não procura seguidores; procura clareza. E, sobretudo, não tem medo de contrariar a tribo a que pertence.
O problema é que este perfil perdeu terreno para uma fauna mais ruidosa.

Jurista
O comentador genuíno é hoje uma espécie em vias de extinção. É aquele que hesita quando deve hesitar, que admite dúvidas, que reconhece limites
Há os propagandistas disfarçados, que usam o estatuto de comentador como biombo. Não analisam: promovem. Não interpretam: repetem. A sua função não é iluminar o debate, mas empurrar o público para a conclusão que já trazem escrita de casa. São previsíveis ao ponto de se poder escrever o comentário antes de o ouvirmos.
Depois, há os ingénuos, que confundem desejos com realidade. Não mentem — mas também não pensam. Acreditam que o mundo é como deveria ser, e não como é. São perigosos porque falam com a convicção dos justos, mas sem o incómodo da verificação.
E, finalmente, há os crentes na própria mentira. Estes são os mais fascinantes: começam por distorcer a realidade por conveniência e acabam por acreditar na distorção. A fronteira entre manipulação e autoengano dissolve‑se. Tornam‑se missionários de uma verdade que só existe na sua cabeça.
O resultado é um espaço público onde a opinião vale mais do que o facto, a convicção pesa mais do que a evidência e a narrativa substitui a realidade. O comentador sério parece tímido; o propagandista parece convincente.
Talvez esteja na altura de recuperar uma distinção simples, mas essencial:
O comentador procura a verdade; o propagandista procura a vitória.
E enquanto não voltarmos a exigir esta diferença, continuaremos a confundir barulho com pensamento.
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