Três breves questões
A sério, que tive que puxar pela cabeça para me lembrar o que fazia recordar a publicidade da FNAC, em que uma Alexandra Lencastre (percebi de quem se tratava, só à terceira visualização) lembrava que era tarde e o melhor seria não mandar mensagens no telemóvel, mas meter na cama Fernando Pessoa (o princípio será, um escritor de cada vez) obviamente em livro, parodia ao “Na cama com…” (anos noventa na SIC, vinte e sete episódios), como reparei depois. Não sei qual foi a ideia de dar a tudo aquilo um ar decadente, mas se não era para parecer, falharam em toda a linha. A publicidade parece-me muito desajustada, mas talvez fosse o que procuravam. Penso, no entanto, que falhar em toda a linha, pode funcionar ao contrário, na lógica do quanto pior, melhor.
Os observatórios de tudo e mais alguma coisa descobriram que, em Portugal, uma em cada sete crianças pobres passa fome. E eu que pensava que existiam famílias pobres e não crianças pobres, ou também existirão famílias ricas em que as crianças são pobres e ainda (o que tem que ser tem muita força), famílias pobres em que as crianças são ricas? Esta ideia de separar as crianças das famílias (para no fundo dar os mesmos resultados), terá sido ideia de quem? Provavelmente daqueles institutos que ganham à peça. Ou, falando em crianças pobres a malta toma mais atenção? Não sei, mas a menos que me elucidem não vejo a relevância das conclusões do estudo.
Lateralmente, só porque o li numa entrevista num jornal nacional, outros problemas e outros dados, vindos de outro observatório ou instituto, tudo muito psicológico e sociológico, que passaram na televisão, mas também na imprensa escrita: a questão do assédio no trabalho. Os números que avançaram eram poderosos, tudo em desfavor dos nossos patrões e de muitas das chefias intermédias, dentro da empresa. Para uma das autoras, entrevistada no “Público”, a questão do assédio era grave, mas já existia há muito tempo, só os assediados não tinham percebido. Eu compreendo o ponto de vista; esse tipo de relação de trabalho em que uns pressionam os outros de uma forma pouco lícita só agora parece ser nomeada. Mas penso haver aqui um pouco de política a mais.
Os tempos mudam e a natureza das coisas também. Não se pode comparar épocas sem perceber que eramos muito diferentes há sessenta anos. Talvez se pudesse pensar que uma criatura que não entende estar a ser assediada é porque, provavelmente não o está a ser, porque esse será, talvez o cerne do problema, Além de que não se pode ler uma sociedade de há setenta anos segundo os princípios de agora. Mas isso sou eu a assediar os meus quatro leitores.
