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Conto

31 May 2026 at 16:06

Na tarde de quarta-feira, dia vinte e quatro de novembro de dois mil e dez, o outono mostrava-se generoso ao ensolarar sem máculas o céu de Baía dos Lobos. No pátio do prédio, balões multicolores enchidos a hélio, a Dora Exploradora de sorriso desenhado na toalha, nos copos e nos guardanapos, doces, brigadeiros e salgadinhos feitos com capricho por Guete e Lucinha durante toda a manhã, refrigerantes, pinhatas suspensas e confetes tentavam ludibriar a dura realidade dos dias comuns.

Os olhinhos brilhantes de Luana postos no imaginário do número cinco insuflado esvoaçando sobre si, aqueciam o peito da mãe a ponto de lhe derreter o coração de cera. Um cinco dourado que balançava ao ritmo leve da brisa, preso à mesa do bolo por um fio de nylon que fingia não estar lá – um cinco dourado que, por instantes de transe involuntário, transportou Lúcia até mil novecentos e oitenta e nove, revisitando-se nas ruas de Dançolândia com a idade que a filha agora completava, de mãozinhas presas à pipa pelos mesmos fios invisíveis com que naquele preciso momento amarrava os balões da festa. O amor despertado por Luana era a máscara de oxigénio que lhe permitia sobreviver ao vácuo de afinidades a que fora submetida ao longo da vida, pela ausência do pai que nunca existiu e da mãe que lhe falecera no auge da infância.

Benzeu-se como prova de gratidão ao destino – por ser mãe – e regressou a si para receber os amigos recém-chegados.

A pequena Beatriz vinha alegre pela mão de Verónica, colega de Lúcia e Guete na Hamburgueria, e redobrou o contentamento ao ver a aniversariante. Juntas correram pelo pátio exibindo coreografias de piruetas meticulosamente ensaiadas, ostentando a cumplicidade que as tornava inseparáveis.

O pátio foi ocupado pelos parcos colegas da hamburgueria que tinham conseguido folga nessa tarde e alguns amigos da igreja de domingo – parte deles com filhos de idades próximas à da pequena Luana.

A possibilidade de fugir ao real e habitar a fantasia, ocupar o lugar de princesa num reino protegido de todos os males, deixava-a tão feliz. Tomara um sorriso assim permanecesse cativo em todos os rostos da infância, repelindo em definitivo os crimes contra ela cometidos. Tomara se privilegiasse essa ternura como regra desprovida de exceções.

Umas crianças jogavam à bola, outras rebentavam pinhatas, outras ainda improvisavam no Karaoke ou desapareciam e apareciam no esconde-esconde quando se ouviu o cantar estridente dos pneus do carro de Miguel.

Luana, ao reconhecer aquele som, trepou instintivamente para o colo de Lúcia, enquanto meninos e meninas corriam assustados para abraçar as pernas dos pais e das mães, na intenção de se protegerem da atrocidade que lhes boicotava a brincadeira.

Com que então, Gritava a ponto lhe saltarem as veias pelo pescoço, A minha filha faz anos e ninguém me convida para a festa, não me digas que a cerveja não chega para todos, Lúcia.

Miguel, você sabe muito bem que esse final de semana a menina estará com você e vocês terão oportunidade de comemorar também, vai embora, estou te pedindo, por favor, não estrague mais um dia da vida da sua filha, ela não merece, vai embora daqui, Miguel.

Indiferente, virou-se para Luana e continuou, Este fim de semana o pai vai-te preparar a melhor surpresa da tua vida, porque tu sabes bem que o pai te ama e a mãe não presta, não sabes, minha filha, o pai vem-te buscar no sábado e vamos à Disney, queres ir à Disney com o papá, queres.

Guete, que já assistira de perto a violências anteriores de Miguel, não conteve a fúria, pegou no banco de cantos pontiagudos à sua frente e lançou-o contra a cabeça dele, fazendo-o recuar perante a evidência do perigo.

Incapaz de pensar nas consequências do impulso, depois de lhe furar a testa com a quina enferrujada, ainda o seguiu até ao carro, Vai embora, seu ogro, seu sem vergonha, seu nojento de merda, você não é homem não é nada, seu demónio, covarde que só sabe crescer em cima de criança, some daqui ou eu te mato na frente de todo o mundo, eu vou para o xilindró mas te garanto que você não machuca mais esta menina.

Tremendo-se por inteiro – suado, sangrado e de pupilas dilatadas -, já refundido dentro do carro, disse por fim, Prepara-te que é hoje que a polícia te bate à porta, ou te afastas da minha filha ou tens os dias contados pelos dedos de uma mão.

E arrancou, deixando para trás um rasto de terror, desproteção e injustiça, que se enraízaria irreversivelmente no mundo interior daquela criança. Uma ferida incicatrizável e para sempre exposta na epiderme dos seus afetos.

(próximo capítulo: edição 11 de junho)

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