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Mucosite: um efeito secundário frequente no tratamento do cancro que exige atenção e prevenção

1 June 2026 at 17:30

Os tratamentos utilizados no combate ao cancro, como a quimioterapia, a imunoterapia e a radioterapia, sobretudo quando aplicados na região da cabeça e pescoço, podem provocar vários efeitos secundários. Um dos mais frequentes e debilitantes é a mucosite, uma inflamação da mucosa da boca e da garganta que pode afetar os lábios, as gengivas e outras estruturas da cavidade oral.

A mucosite é considerada um dos efeitos secundários com maior impacto na qualidade de vida das pessoas em tratamento oncológico.

Nem todos os medicamentos utilizados no tratamento do cancro provocam mucosite, mas trata-se de um sintoma relativamente comum, que exige vigilância, prevenção e intervenção precoce.

Geralmente, o doente apresenta irritação da mucosa e úlceras semelhantes a aftas, que podem causar dor intensa ao mastigar, engolir ou mesmo ao beber líquidos.

A dor e o desconforto dificultam a alimentação e a fala, afetando não só o bem-estar físico, como o emocional do doente.

Apesar de existirem tratamentos para a mucosite, a prevenção continua a ser uma das estratégias mais eficazes. Manter uma boa higiene oral é fundamental, com escovagem dos dentes após as refeições e antes de dormir, utilizando uma escova de cerdas macias e uma pasta de dentes adequada para dentes sensíveis.

O uso de elixires sem álcool para bochechar após as refeições ajuda a manter a boca limpa, enquanto a hidratação dos lábios e da mucosa oral é essencial. Evitar o tabaco é igualmente recomendado, pois o fumo agrava a irritação da mucosa e atrasa a cicatrização.

Quando a mucosite já está presente, a alimentação deve ser adaptada para reduzir o desconforto e garantir uma nutrição adequada. Alimentos cremosos e fáceis de mastigar e engolir, como sopas, purés, batidos, fruta cozida, gelatinas, arroz e massa bem cozidos, bem como carne e peixe desfiados ou triturados, são opções a considerar.

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Os alimentos devem ser ingeridos à temperatura ambiente, evitando temperaturas muito quentes ou muito frias, e as refeições devem ser fracionadas ao longo do dia, com pequenas quantidades ingeridas várias vezes. A ingestão de água, entre 1,5 e 2 litros por dia, é fundamental, podendo ser consumida em pequenos goles durante as refeições para facilitar a deglutição. Em alguns casos, e se o tratamento permitir, a aplicação de frio na mucosa, como gelo ou gelados, pode aliviar a dor.

Por outro lado, devem ser evitados alimentos secos ou ásperos, como torradas, tostas, frutos secos e bolachas, bem como alimentos salgados, ácidos, cítricos ou muito condimentados. Bebidas alcoólicas, gaseificadas e com cafeína, como café e chá preto, também podem agravar a irritação da mucosa e devem ser reduzidas ou evitadas.

Nos últimos anos, o uso de produtos naturais na prevenção e no tratamento da mucosite tem sido alvo de investigação científica. O mel tem demonstrado resultados promissores, com evidência de redução da dor e da gravidade das lesões. Outros produtos naturais, como camomila, própolis, cúrcuma e aloe vera, apresentam algumas evidências de eficácia, mas ainda necessitam de mais estudos antes de serem integrados de forma sistemática na prática clínica.

É fundamental que os doentes informem a sua equipa de saúde ao primeiro sinal de mucosite oral. Para além das medidas de higiene, alimentação e cuidados gerais, pode ser necessária medicação específica para aliviar os sintomas e prevenir complicações.

A deteção precoce e o acompanhamento adequado permitem reduzir o impacto da mucosite, melhorar a qualidade de vida e garantir a continuidade dos tratamentos oncológicos com maior segurança e conforto.

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Politicamente (In)correto: A Democracia por adjudicação. Quem não tem ajustes diretos?

1 June 2026 at 15:40

Os ajustes diretos, as avenças e os contratos sem concurso prévio voltaram a ocupar o espaço mediático.

Na verdade, nunca saíram dele.

Apenas regressam ciclicamente à superfície, como aquelas verdades incómodas que todos conhecem, mas sobre as quais poucos querem falar com excessiva frontalidade.

A questão é simples, que autarquia, empresa municipal, comunidade intermunicipal ou mesmo estrutura partidária não recorre a este mecanismo legal?

Tal como as cartas de amor de antigamente, os ajustes diretos parecem existir em todo o lado.

Uns assumem-nos com naturalidade, outros disfarçam-nos com uma criatividade burocrática digna de melhor causa.

Importa ser claro, o ajuste direto é um instrumento legal.

O problema nunca esteve na sua existência.

O problema reside no uso intensivo, recorrente e, por vezes, pouco escrutinado que dele se faz.

Falamos de muitos milhões de euros.

Talvez de milhares de milhões quando somados os contratos celebrados pelos 308 municípios, pelas 3.259 freguesias e pelo vasto universo de empresas municipais e intermunicipais que povoam a arquitetura administrativa portuguesa.

Um fluxo financeiro colossal que atravessa governos locais de esquerda, de direita e de todas as tonalidades ideológicas intermédias.

Neste domínio, as diferenças partidárias parecem dissolver-se com uma surpreendente rapidez.

A ideologia termina frequentemente onde começa a gestão do poder. O ajuste direto tornou-se uma espécie de língua franca da administração pública local, todos a criticam quando estão na oposição e quase todos a utilizam quando chegam ao poder.

Mas o verdadeiro problema não está nos contratos.

O busílis da questão encontra-se na perceção pública sobre aquilo que acontece para além deles.

A sociologia política ensina-nos que as democracias não sobrevivem apenas da legalidade dos seus atos.

Dependem igualmente da confiança dos cidadãos nas instituições.

E essa confiança é corroída quando a coincidência começa a parecer demasiado frequente para ser apenas coincidência.

Quando uma empresa ou um Cidadão celebra sucessivos contratos com uma autarquia e, simultaneamente, surge envolvido na promoção política do partido que governa essa mesma autarquia, o problema deixa de ser jurídico. Passa a ser ético.

Passa a ser político.

Passa a ser democrático.

Naturalmente, ninguém poderá impedir um empresário, um consultor ou um prestador de serviços de ter convicções políticas.

Vivemos numa democracia.

O problema surge quando a fronteira entre a prestação de um serviço e a fidelização de uma influência se torna difusa.

É nesse momento que o Cidadão comum começa a desconfiar.

E a democracia vive mal da desconfiança.

A antropologia do poder ensina-nos que as sociedades humanas tendem a reproduzir redes de reciprocidade.

Favores geram favores.

Lealdades geram recompensas.

Proximidades geram oportunidades. Não se trata necessariamente de corrupção.

Muitas vezes trata-se apenas da velha natureza humana a operar dentro das instituições modernas.

O resultado, porém, é semelhante, forma-se uma elite de proximidade que dispõe de vantagens competitivas dificilmente alcançáveis por quem não pertence ao círculo certo.

Mais preocupante ainda é a opacidade do financiamento político local. Enquanto as campanhas nacionais são alvo de maior escrutínio mediático e institucional, a realidade autárquica continua a viver em zonas cinzentas onde a fiscalização raramente acompanha a criatividade dos protagonistas.

Quando determinados grupos políticos conseguem mobilizar recursos, apoios, serviços, comunicação e influência provenientes de empresas “amigas”, os seus adversários entram na disputa em manifesta desigualdade de circunstâncias.

Não porque lhes falte competência ou apoio popular, mas porque lhes faltam as chaves de acesso às redes informais de poder.

A Democracia deveria ser uma competição de ideias.

Demasiadas vezes transforma-se numa competição de contactos.

Talvez seja apenas percepção minha.

Talvez tudo isto aconteça apenas no domínio da imaginação.

Talvez os ajustes diretos sejam sempre neutros, as avenças absolutamente inocentes e as coincidências apenas isso mesmo, coincidências.

Mas, se assim fosse, porque motivo tantos Cidadãos olham para estas situações com crescente ceticismo?

A legalidade é indispensável.

Contudo, uma Democracia saudável exige algo mais exigente do que a mera conformidade legal, exige legitimidade, transparência e distância crítica face aos interesses instalados.

Porque há uma verdade simples que o Direito não consegue resolver sozinho, nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo.

Talvez eu continue ingénuo.

Talvez continue a acreditar que o poder deve ser escrutinado, independentemente da cor partidária que o exerce.

Ou talvez seja apenas um Quixote sem Pança, insistindo em combater moinhos que, por coincidência, continuam sempre ligados à rede elétrica do poder.

Leia também: Politicamente (In)correto: O Algarve da hipocrisia – governaram, falharam, agora fingem | Por Francisco Moleiro

Ensinar as crianças a cuidar da saúde da coluna desde cedo | Por Jorge Alves

1 June 2026 at 14:46

No Dia Mundial da Criança, faz sentido lembrar que cuidar da saúde também se aprende. Tal como ensinamos as crianças a lavar os dentes, a ter uma alimentação equilibrada ou a praticar exercício físico, é igualmente importante ajudá-las a conhecer o próprio corpo e a estar atentas a sinais que podem indicar problemas de saúde. A saúde da coluna é um desses exemplos. Durante o crescimento, existem alterações que podem surgir de forma silenciosa e passar despercebidas durante meses. A escoliose é uma delas.

A escoliose é uma deformidade da coluna vertebral caracterizada por uma curvatura anormal da coluna. Surge mais frequentemente durante a infância e adolescência, especialmente nas fases de crescimento rápido. Na maioria dos casos, a causa é desconhecida, razão pela qual é chamada escoliose idiopática.

Muitas vezes, a escoliose não provoca dor, sobretudo nas fases iniciais. Por isso, a observação atenta por parte dos pais, familiares, professores ou profissionais de saúde é fundamental. Existem alguns sinais simples que devem despertar atenção: um ombro mais alto do que o outro, assimetria da cintura, uma omoplata mais saliente, inclinação do tronco ou diferença na altura das ancas. Em alguns casos, a alteração é mais evidente quando a criança se inclina para a frente.

A deteção precoce faz toda a diferença. Quando identificada atempadamente, a escoliose pode ser acompanhada e tratada de forma adequada, permitindo reduzir a progressão da deformidade e melhorar a qualidade de vida da criança ou adolescente. O acompanhamento por profissionais especializados é essencial para definir a melhor abordagem em cada situação.

É importante transmitir às crianças que estar atento ao próprio corpo não deve gerar medo, mas sim confiança e responsabilidade. Pequenos gestos de atenção podem ajudar a reconhecer alterações precocemente e facilitar o acesso aos cuidados necessários.

A campanha “Josephine Explica a Escoliose” surge precisamente com esse objetivo: sensibilizar famílias e população em geral para a importância da literacia em saúde e da deteção precoce da escoliose pediátrica. Através de uma linguagem simples e acessível, procura ajudar pais e filhos a reconhecer sinais de alerta e a compreender melhor esta condição.

Promover hábitos saudáveis, incentivar a atividade física e ensinar as crianças a cuidar da sua saúde desde cedo é um investimento importante no seu futuro. Porque crescer com saúde também passa por cuidar da coluna.

Leia também: Aos 102 anos, algarvia Gracinda Andrade continua a encantar gerações

A agonia da democracia | Por José Figueiredo Santos

1 June 2026 at 09:03

Há qualquer coisa de peculiar na democracia liberal contemporânea. Em teoria, o poder não pertence a ninguém; é um objeto transitório, disputado em eleições periódicas, onde os cidadãos decidem quem governa. Na prática, porém, o sistema parece viver obcecado por uma figura muito específica: o eleitor que muda de ideias.

Paradoxalmente, nada parece inquietar mais as lideranças partidárias do que o eleitor fiel, aquele que permanece décadas a votar no mesmo partido com a consistência de um relógio suíço. O cidadão que não vacila, não questiona e não se deixa seduzir por novas promessas é quase uma anomalia democrática. Afinal, para que serviriam as campanhas eleitorais, os debates televisivos, os slogans cuidadosamente testados e os programas apresentados em papel couché brilho, se todos mantivessem as mesmas escolhas de sempre?

Levada ao extremo, a lógica é irresistível. Se todos os eleitores permanecessem estáveis e resignados, bastaria realizar eleições uma única vez. Arquivava-se o resultado numa gaveta do Estado, distribuíam-se cópias pelos arquivos nacionais e seguia-se, com tranquilidade, rumo à eternidade política. Felizmente para os partidos, existem os indecisos — essa espécie protegida sem a qual boa parte da indústria eleitoral entraria rapidamente em colapso.

É por isso que cada mudança de voto é celebrada como uma pequena epifania democrática. O cidadão que durante quarenta anos não mudou de barbeiro, de marca de café ou de clube de futebol transforma-se subitamente num herói da renovação política quando decide trocar de cruzinha partidária. Os analistas analisam, os comentadores comentam e os estrategas partidários descobrem sinais históricos em oscilações que, muitas vezes, caberiam numa conversa de café.

A democracia moderna parece depender desta permanente mobilidade eleitoral. É necessário convencer os eleitores de que a mudança é indispensável, urgente e, de preferência, iminente. Daí o esforço quase épico dos partidos para arrancar os cidadãos do conforto dos seus hábitos. E assim se alimenta a esperança de que aqueles eleitores aparentemente incapazes de abandonar os chinelos, o roupão de domingo ou a chávena de café de cevada sejam tocados pela revelação súbita proporcionada por um cartaz eleitoral particularmente inspirado ou por um programa partidário cuja leitura rivaliza, em emoção, com a dos manuais escolares digitais.

Não admira, por isso, que muitos observadores já falem de um voto “à la carte”, mais volátil e personalizado do que o antigo voto de dever ou de pertença ideológica. O eleitor-consumidor escolhe, experimenta, abandona e regressa, como quem percorre as prateleiras de um supermercado político cada vez mais concorrencial.

Mas esta mobilidade não trouxe necessariamente maior confiança. Pelo contrário. Entre eleição e eleição acumulam-se ilusões, desilusões e frustrações. Em praticamente todas as democracias ocidentais cresce a desconfiança em relação aos políticos. Incapazes de cumprir promessas, de resolver problemas estruturais ou de responder às inquietações mais imediatas dos cidadãos, os responsáveis políticos são frequentemente vistos como especialistas da palavra abundante e da eficácia escassa.

A suspeita agrava-se quando se instala a perceção de que a principal preocupação dos governantes não é governar, mas cuidar dos seus interesses e da sobrevivência eleitoral. As sondagens substituem a bússola, a popularidade ocupa o lugar da estratégia e o próximo ciclo eleitoral torna-se mais importante do que a próxima geração.

Neste contexto, o desencantamento político alastra. Os partidos já não moldam as identidades dos seus eleitores como outrora, as lealdades enfraquecem e os votos de protesto multiplicam-se. Cresce a disponibilidade para punir elites consideradas incompetentes, cínicas ou excessivamente agarradas aos seus privilégios.

É neste terreno fértil que o populismo encontra espaço para prosperar. A rejeição das instituições tradicionais intensifica-se, enquanto discursos simplificadores, por vezes xenófobos, conquistam uma normalidade que há poucas décadas pareceria impensável. Ainda assim, não faltam partidos que insistem em interpretar os conflitos políticos atuais através de categorias herdadas de um mundo desaparecido, como se os problemas do século XXI continuassem a caber integralmente nos esquemas mentais do período entre guerras.

O resultado traduz-se numa política desacreditada e numa democracia permanentemente submetida a exame. Vivemos numa época hipermoderna, individualista e profundamente desconfiada, onde as expectativas são elevadas e a tolerância para a frustração é cada vez menor.

Charles de Gaulle dizia que “toda a política que não promete sonhos está condenada”. A frase continua atual. A dúvida é outra: quem ainda acredita nos sonhos que a política promete? E, sobretudo, onde se encontra hoje o fôlego das ambições políticas, a ambição capaz de as transformar em algo mais do que um slogan de campanha?

Leia também: O devir da indiferença | Por José Figueiredo Santos

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