Há quarenta anos, talvez um pouco mais, aquela avenida era ainda uma estrada de terra batida. O pó levantava-se devagar atrás dos carros raros, as vozes quase que se conheciam pelo nome e o silêncio não era ausência: era paisagem. Havia ruído, claro, mas um ruído humano, proporcional às horas e às necessidades. O mundo ainda não tinha aprendido a temer o vazio, ou a tomar consciência da presença deste.
Muitos anos depois veio a pandemia. E com ela, um silêncio estranho, quase clínico, assustado. As cidades ficaram suspensas e à deriva. Pela primeira vez em décadas, muita gente ouviu o som da própria respiração dentro de casa. Houve quem descobrisse o desconforto de estar consigo mesmo.
Outros encontraram nele uma espécie de revelação. Mas o silêncio, quando se prolonga, torna-se também um espelho, e nem todos suportam olhar demasiado tempo para dentro.
Talvez por isso o tempo atual da pós-pandemia tenha regressado com esta violência sonora. Como se a sociedade inteira tivesse decidido compensar o silêncio imposto, a falta de movimentos e o tempo perdido através do excesso. A avenida, outrora espaçosa até no silêncio, transformou-se numa montra permanente de presença. E de presença ruidosa que também se faz ver. Não pode haver pausa. Não pode haver quietude. O silêncio passou a ser confundido com abandono, fracasso ou invisibilidade.
As motos são talvez o símbolo mais evidente desta nova condição. Muitas surgem já alteradas de propósito, preparadas para romper o ar como uma declaração de existência. Não basta passar: é preciso ser ouvido. Há ali qualquer coisa de profundamente social e psicológica. Muitos dos que agora aceleram avenida acima talvez tenham passado décadas sem grande reconhecimento, sem estatuto, sem palco. O ruído oferece-lhes identidade instantânea. Durante alguns segundos, todos olham. Todos sabem que estão ali.
E qualquer crítica ao excesso sonoro é passível de ser recebida não como um pedido de convivência, mas como ataque pessoal. Porque, no fundo, não se está apenas a questionar uma mota; está-se a questionar uma afirmação de existência. Num tempo em que tantos vivem emocionalmente precarizados, qualquer tentativa de limite é interpretada como humilhação ou ameaça – a lembrar os limites da época pandémica? Daí as retaliações subtis, os ressentimentos silenciosos, as pequenas agressividades do quotidiano.
Ao mesmo tempo, regressaram as marcas ostensivas, os símbolos rápidos de prosperidade, as aparências de riqueza. Também elas fazem barulho, ainda que sem som. O consumo tornou-se linguagem emocional. Usa-se o objeto para produzir impacto, como se cada pessoa carregasse uma necessidade urgente de provar que venceu alguma coisa – mesmo que nem saiba exatamente o quê. O ruído já não é apenas acústico; é visual, social, performativo.
E voltaram também as filas. Curiosamente, as filas dos anos 80 regressam agora não por escassez material, mas por excesso de circulação humana? Filas para consumir, para fotografar, para participar, para não ficar de fora. A experiência contemporânea parece marcada por um medo profundo de desaparecer do movimento coletivo.
As obras espalhadas pelas cidades ocidentais encaixam perfeitamente neste quadro. Constroem-se prédios, remodelam-se espaços, perfuram-se ruas, como se a civilização tivesse horror à imobilidade. O martelo pneumático tornou-se banda sonora permanente. Tal como a música imposta em cafés, lojas, ginásios, esplanadas e elevadores. Hoje, quase nenhum espaço público aceita o silêncio como possibilidade legítima. O som ambiente tornou-se uma anestesia coletiva.
E depois há a velocidade. A fala acelerada, quase em verborreia. As opiniões prontas. A necessidade de responder imediatamente a tudo. Todos parecem especialistas instantâneos de todas as matérias.
Como se parar para pensar fosse já um sinal de fraqueza intelectual. A pausa, importante momento de ponderação, desapareceu do raciocínio e da conversa.
Talvez porque a pandemia tenha mostrado algo insuportável para o nosso tempo: que, quando tudo abranda, emerge aquilo que fomos adiando sentir, pensar, ver. E assim, parece que o corpo social reagiu como um sistema nervoso hiperativado. Um enorme organismo coletivo incapaz de regressar à quietude sem ansiedade.
No fundo, esta avenida já não é apenas uma avenida. É um retrato do nosso tempo: uma civilização exausta do silêncio, aterrorizada pela introspeção e viciada em estímulos constantes para não ter de escutar o que permanece por resolver dentro de si.