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Solidão, envelhecimento e saúde: o problema que muitas análises não mostram

Há pessoas que vão envelhecendo sem fazer grande ruído. Continuam a abrir a janela de manhã, a cumprir pequenas rotinas, a ir à farmácia, a responder “vai-se andando” quando alguém pergunta como estão. À superfície, parece que tudo se mantém funcional. A tensão arterial pode até estar controlada, a diabetes mais ou menos vigiada, a medicação organizada numa caixa semanal em cima da mesa.

E, no entanto, por detrás dessa aparência de estabilidade, instala-se por vezes outra forma de fragilidade, mais difícil de medir e mais fácil de ignorar: a solidão.

Não falo apenas de viver sozinho. Há quem viva sozinho e se sinta inteiro, ligado, acompanhado pela família, pelos vizinhos, por um grupo, por uma rotina com sentido. E há quem esteja rodeado de gente e passe os dias numa espécie de ausência relacional difícil de explicar.

A solidão, nessa forma mais funda, não é a falta de pessoas à volta. É a falta de presença com significado. É não ter com quem partilhar o dia, a preocupação, a memória, a pequena conquista, o medo banal que só parece menor quando é dito a alguém.

Durante muito tempo, esta realidade foi tratada quase como um assunto de foro íntimo, mais próximo da tristeza do que da saúde. Como se fosse apenas um desconforto emocional, uma consequência quase inevitável da idade, da viuvez, da reforma ou da saída dos filhos de casa. Mas essa leitura é curta.

A solidão prolongada desgasta. Não aparece numa análise de rotina, não se ausculta com um estetoscópio, não surge com a nitidez de uma fratura ou de uma infeção, mas vai deixando marca. No humor, no sono, na energia, na motivação para sair, na vontade de cozinhar, na adesão à medicação, na forma como se tolera a dor, na rapidez com que o mundo começa a encolher.

É precisamente isso que a torna tão difícil de enfrentar. A medicina está habituada a procurar aquilo que se mede bem. Valores, imagens, sinais, alterações objetivas. E isso é indispensável. Mas envelhecer não é apenas atravessar uma sucessão de parâmetros clínicos. É também perder e reconstruir vínculos, adaptar-se a limitações, reorganizar o sentido dos dias. Quando essa dimensão falha, o impacto não se limita à esfera emocional. O corpo sente-o. A mente sente-o. A autonomia sente-o.

Muitos idosos não dizem “estou sozinho”. Dizem que andam mais cansados. Que dormem pior. Que não lhes apetece sair. Que a comida já não sabe ao mesmo. Que têm menos força. Que se esquecem mais. Que os dias são todos parecidos. Às vezes, o sofrimento chega à consulta disfarçado de sintoma vago. E nem sempre o sistema tem tempo, disponibilidade ou sensibilidade para ler o que está por trás. O que parecia ser apenas cansaço pode ser desânimo. O que parecia falta de apetite pode ser vazio. O que parecia desleixo pode ser desistência lenta.

Num país que envelhece, isto não devia ser uma nota de rodapé. Devia estar muito mais no centro da conversa. Falamos, e bem, de demência, de fragilidade, de dependência, de polimedicação, de listas de espera, de cuidados continuados. Mas falamos menos sobre a erosão silenciosa da vida relacional. Menos da velhice passada entre quatro paredes. Menos da perda de lugar social. Menos do efeito cumulativo de dias inteiros sem conversa verdadeira, sem toque, sem convite, sem escuta. Como se isso fosse triste, sim, mas secundário. Não é.

Há uma tendência perigosa de naturalizar a solidão no envelhecimento. Como se fosse expectável. Como se, a partir de certa idade, a vida tivesse inevitavelmente de se tornar mais estreita, mais silenciosa, mais ausente. Essa normalização é profundamente injusta. Porque envelhecer não devia significar desaparecer aos poucos do campo de atenção dos outros. Não devia significar tornar-se um corpo clinicamente seguido, mas socialmente esquecido.

A saúde, quando pensada a sério, é mais do que o controlo de doenças. É também vínculo, participação, reconhecimento, continuidade humana. Um idoso que tem com quem falar, a quem telefonar, com quem almoçar, a quem fazer falta, não tem apenas mais companhia. Tem mais proteção. Mais estrutura. Mais motivo para se cuidar. Mais razão para sair da cama e continuar a ocupar espaço no mundo. Às vezes, é nesse plano invisível que começa a diferença entre aguentar e viver.

Talvez, por isso, a resposta não possa ficar toda do lado da medicina, embora a medicina tenha a obrigação de ver melhor este problema. A resposta começa nas famílias, mas não acaba nelas. Passa pelos vizinhos, pelas juntas, pelas autarquias, pelas associações locais, pelos centros de saúde, pelas igrejas, pelas farmácias, pelos transportes, pelos espaços públicos, pelas redes informais que ainda vão resistindo apesar de tudo. Passa, no fundo, por decidir se queremos ser uma sociedade que prolonga a vida apenas em anos ou também em presença, dignidade e pertença.

A solidão não tem cor num relatório laboratorial. Não sobe nem desce numa folha de resultados. Mas adoece. E talvez uma sociedade se revele menos pela sofisticação dos exames que consegue fazer e mais pela capacidade de não deixar ninguém envelhecer como se já tivesse saído, em silêncio, do lado de dentro da vida.

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Fisco alerta para email fraudulento sobre alteração da declaração de IRS

A Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) alertou, num comunicado no seu site, para uma mensagem fraudulenta, enviada por email, referente a um pedido de alteração da declaração de IRS, na qual é pedido que se carregue num link.

A AT disse que “tem conhecimento de que alguns contribuintes estão a receber mensagens de correio eletrónico supostamente provenientes da AT nas quais é pedido que se carregue em links que são fornecidos”.

Num dos exemplos da mensagem divulgado pela AT, os visados são informados de que foi “detetado um pedido de alteração” à sua declaração de IRS, sendo sugerido “confirmar ou anular esta alteração”, através de um link.

Outros dos exemplos dados pelo fisco dizem respeito ao recálculo automático do IRS, a uma suposta verificação de dados pessoais na conta do Portal das Finanças ou a uma fatura eletrónica (FE) referente ao registo fiscal do visado, entre outros.

“Estas mensagens são falsas e devem ser ignoradas. O seu objetivo é convencer o destinatário a aceder a páginas maliciosas carregando nos links sugeridos ou a efetuar pagamentos indevidos”, refere a AT, salientando que os visados, “em caso algum”, deverão “efetuar essas operações”.

O prazo de submissão da entrega das declarações de IRS relativas aos rendimentos ganhos ao longo de 2025 arrancou a 1 de Abril e termina a 30 de Junho.

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Federação defende vigilância das praias para além da época balnear

O presidente da Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores (FEPONS), Alexandre Tadeia, defendeu ontem que Portugal deve repensar o modelo de vigilância nas praias, alargando a resposta para além dos meses oficiais de verão.

“O sistema que temos em Portugal de assistência a banhistas, como está montado agora legalmente, por um lado não atrai nadadores-salvadores e, por outro lado, não retém” estes profissionais, disse Alexandre Tadeia.

O presidente da FEPONS falava à agência Lusa à margem do Campeonato Nacional de Salvamento Aquático Desportivo de Praia, que está a decorrer na praia Vasco da Gama, em Sines.

“Todos os anos temos falta de nadadores-salvadores”, principalmente, no arranque da época balnear e, para colmatar esta dificuldade, estes profissionais fazem “muitas horas extraordinárias”, salientou.

Para os nadadores-salvadores, “é normal fazerem 56 horas de trabalho por semana, 60 ou mais”, acrescentou.

“É algo que deveríamos mudar. Já temos feito muitas propostas para alterar esta situação. Temos sido ouvidos, agora, a realidade é que não se tem traduzido em legislação que é isso que necessitamos”, argumentou.

A época balnear arranca, este sábado, nas praias dos concelhos de Grândola, no distrito de Setúbal, e de Odemira, no distrito de Beja.

Segundo o responsável, existem cerca de cinco mil pessoas certificadas como nadadores-salvadores em Portugal, mas seriam necessários cerca de seis mil profissionais para garantir horários até 40 horas semanais.

“Desses cinco mil, nem todos vão querer trabalhar como nadador-salvador e isto é algo que achamos que vale a pena mudar porque a estatística de morte por afogamento em Portugal diz-nos que em locais vigiados a percentagem é muito baixa”, assegurou.

Com base neste cenário, Alexandre Tadeia admitiu que, neste arranque da época balnear, vão existir “muitos locais” com “dificuldade em cumprir aquilo que a lei” determina em “quantidade de nadadores-salvadores”.

Por outro lado, sublinhou, há que considerar a mortalidade nas praias fora da época balnear.

“Estamos só a olhar para dois ou três meses de verão, em alguns locais, quatro meses de verão e, no resto do ano, temos muita mortalidade nas praias portuguesas por afogamento”, observou.

O presidente da federação deixou ainda um alerta aos banhistas para que frequentem apenas “espaços aquáticos vigiados” e respeitem as bandeiras que delimitam a área de banho.

“A maior parte dos portugueses não têm noção” de que “apenas a unidade balnear tem vigilância”, e que “o resto da praia é zona não vigiada”, explicou.

O Campeonato Nacional de Salvamento Aquático Desportivo de Praia, em Sines, conta com a participação de 58 atletas de sete equipas que serão apurados para a seleção nacional que vai representar Portugal nos campeonatos da Europa e do Mundo desta modalidade.

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