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Doença Hepática Esteatótica: o “fígado gordo” que não deve ser ignorado

Assinalado a 11 de junho, o Global Fatty Liver Day pretende sensibilizar a população para uma condição silenciosa, mas cada vez mais frequente: a doença hepática esteatótica.

A designação “Doença Hepática Esteatótica” engloba diferentes formas de doença hepática associadas à gordura acumulada no fígado. Entre elas, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD), previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico, que reflete melhor a forte ligação entre esta condição e alterações metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2, síndroma metabólica e hipertensão arterial.

A MASLD é a doença hepática crónica mais comum no mundo. Estima-se que cerca de um em cada quatro adultos no mundo tenha algum grau de fígado gordo (esteatose), sendo que muitos desconhecem totalmente o problema. Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento do sedentarismo, da obesidade, da diabetes e dos hábitos alimentares desequilibrados tem contribuído para o crescimento do número de casos.

Os fatores de risco mais comuns para MASLD incluem excesso de peso, obesidade abdominal, diabetes tipo 2, resistência à insulina, colesterol e triglicéridos elevados, hipertensão arterial e sedentarismo. A predisposição genética e alguns hábitos alimentares, como uma dieta rica em açúcares, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também contribuem para o desenvolvimento da doença.

Apesar de na maioria das vezes não provocar sintomas nas fases iniciais, esta doença pode evoluir para situações graves, como inflamação hepática, fibrose, cirrose e até cancro do fígado. O diagnóstico precoce, através de exames de imagem e análises específicas, bem como o acompanhamento médico, são fundamentais, sobretudo na presença de fatores de risco, permitindo intervir antes que os danos hepáticos se tornem irreversíveis.

A adoção de um estilo de vida saudável continua a ser a estratégia mais eficaz para travar a progressão da doença e, em muitos casos, reverter os danos iniciais. A perda de peso, a prática regular de exercício físico e uma alimentação equilibrada têm demonstrado benefícios significativos.

O Global Fatty Liver Day surge, assim, como uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde e alertar para a importância do diagnóstico precoce. Apesar de frequentemente negligenciada, a Doença Hepática Esteatótica é hoje um importante problema de saúde pública, com impacto crescente a nível mundial.

* Gastrenterologista na ULS Santa Maria e Hospital Lusíadas Lisboa, vice-presidente da assembleia-geral da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)
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O 25 de Abril também é ecológico

No passado mês de Abril, considerado o mês da liberdade em Portugal, o conceito de democracia tem um significado ainda mais importante. Um país que viveu em ditadura sabe o que é não poder decidir e viver com medo e na sombra de um líder autoritário que dita as normas e as formas de vida. Mas não só em Abril se deve falar de democracia.

Mas porque é que uma organização não-governamental de conservação marinha está a falar de democracia?

Porque, a 25 de abril de 1974, Portugal ganhou a sua liberdade, e com isso, a abertura do espaço ao diálogo e associativismo, valores cruciais para o trabalho de uma organização não governamental que procura promover mudanças positivas.

A democracia implica liberdade, justiça, soberania popular e respeito pelos direitos fundamentais, o que inclui um oceano (e ambiente) limpo e saudável. Porque, sim, um meio ambiente limpo é um direito humano e, como tal, deve ser protegido. A democracia não é apenas um valor político, mas também ecológico e moral. 

A democracia foi ganha em Portugal depois de anos de luta. Mas a liberdade trouxe consigo responsabilidade. Uma responsabilidade civil que permite a expressão, tanto individual como coletiva, mas também o direito à exigência de melhores condições de vida, incluindo na qualidade ambiental e acesso a um ambiente saudável. Isto tem permitido, e até promovido, o surgimento de movimentos sociais, culturais e ambientais que visam proteger esses valores. O clamor de vozes que talvez nunca tenham sido ouvidas antes. As vozes da natureza, do mar, das comunidades piscatórias, das mulheres dentro dessas comunidades, entre tantas outras que, quiçá na escuridão de uma ditadura, nunca teriam ganho o valor que hoje acrescentam.

Geralmente, pensamos no processo de tomada de decisão, a nível governamental ou municipal, como algo distante e por vezes opaco. Mas, na verdade, o que lá se concretiza começa pelo que nós, o povo, fazemos, exigimos e votamos.

A responsabilidade inerente à democracia exige que o povo se mantenha informado e tome decisões conscientes. Em quem alguém vota não deveria ser uma decisão aleatória, muito menos assente na popularidade ou numa mera “preferência superficial”. O mérito e o alinhamento dos valores entre quem vota e quem se candidata deve ser o centro da questão. A participação em fóruns e instâncias de aprendizagem, sensibilização e partilha de informação é fundamental para votar de forma consciente e informada.

Contudo, a democracia também pode ser fragilizada por dentro. Movimentos políticos que colocam o crescimento económico acima da proteção ambiental têm ganho popularidade em vários países, incluindo na Europa, escolhidos precisamente através das urnas. Paradoxalmente, parte dessa ascensão alimenta-se de um ecossistema de informação digital fragmentado, onde algoritmos amplificam o sensacionalismo em detrimento do rigor – e onde a desinformação circula mais depressa do que os factos.

Ainda mais preocupante é a falta de interesse político em questões ambientais, devido ao crescente interesse em narrativas populistas e com base no ódio, que criam uma falsa necessidade de investimento em armas e defesa militar. Entretanto, o que realmente nos dá vida, um ambiente e oceano saudáveis, carece de recursos e apoio financeiro para a sua proteção.

A tripla crise ambiental das alterações climáticas, da poluição e da perda acelerada da biodiversidade tem de ser enfrentada de todos os ângulos possíveis. De cima para baixo e de baixo para cima. Na nossa vizinhança, bairro, município, localidade, no Algarve, no Alentejo, na Grande Lisboa e no país inteiro.

Participar, pronunciar-se e exigir transparência, com a liberdade que Abril conquistou, permite-nos influenciar prioridades políticas e contestar decisões que colocam interesses económicos acima do bem comum. A crise climática expõe que nem todas as vozes têm o mesmo peso – e é precisamente aí que a democracia tem de ser mais do que um valor declarado: tem de ser praticada. Sem ela, a participação é silenciada. Sem participação, a ação climática perde legitimidade, eficácia e alma.

Reforçar a democracia é uma condição indispensável para proteger o ambiente e o oceano e, com eles, o futuro.

NOTA: Este é o quinto artigo da “Coluna de Água”, um projeto da Sciaena – Associação de Ciências Marinhas e Cooperação e que publicará, durante um ano, 12 artigos, relacionados com justiça ambiental, direitos humanos, igualdade de género, participação democrática e literacia do oceano.

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Narcoterrorismo | Por Guilherme Rosado

Diz o ditado popular que “Portugal é mar”. Enchemo-nos de orgulho ao afirmar que possuímos uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) do mundo. Porém, a uma grande dimensão corresponde também uma grande responsabilidade: garantir o controlo e a soberania sobre o nosso mar.

Hoje, a costa algarvia tornou-se um hotspot do narcotráfico, operado sobretudo através de lanchas de alta velocidade e orquestrado por grandes organizações criminosas com ligações que vão desde a costa africana até à América do Sul.

Não é por acaso que o Algarve se tornou uma porta de entrada destas rotas. A proximidade estratégica ao Norte de África, aliada a uma geografia costeira propícia a desembarques rápidos em zonas isoladas, favorece este tipo de atividade criminosa. A isto soma-se a fraca capacidade da justiça portuguesa para lidar eficazmente com estes criminosos. É inadmissível que os nossos operacionais arrisquem a vida para deter traficantes que, poucos dias depois, acabam novamente em liberdade. Basta recordar o caso dos traficantes que abalroaram uma embarcação da GNR no Guadiana, provocando a morte de um militar e ferimentos em outros três.

Quando uma organização criminosa utiliza armas de guerra para proteger a sua atividade ilícita no nosso território marítimo, deixa de ser apenas uma rede de tráfico. Passa a constituir uma séria ameaça à autoridade do Estado, à segurança das populações e ao bem comum. É tempo de a legislação e a justiça encararem estas estruturas com a gravidade que merecem, aproximando o seu enquadramento ao de organizações terroristas, tendo em conta a escala da violência, a capacidade de intimidação e o perigo público que representam para as comunidades costeiras e para os operacionais que diariamente as enfrentam no mar.

Defender a soberania nacional e garantir a segurança das nossas águas exige determinação, responsabilidade e visão estratégica. A recente legislação aplicada a este tipo de embarcações constitui um passo positivo e merece reconhecimento, mas não pode ser o ponto de chegada. É fundamental reforçar os meios materiais e humanos ao dispor das forças de segurança e das autoridades marítimas, valorizando aqueles que arriscam a vida ao serviço de Portugal.

Ao mesmo tempo, impõe-se uma justiça célere, firme e eficaz, capaz de responder à crescente sofisticação do narcotráfico e do narcoterrorismo. Um Estado forte na defesa da lei, da ordem e da segurança dos cidadãos é uma condição indispensável para proteger as famílias, preservar a coesão social e salvaguardar a liberdade de todos.

O mar continua a ser o nosso maior desígnio nacional. Mas, para o preservar, temos de saber protegêlo. E, aos olhos de um país inteiro, a nossa fronteira sul continua vulnerável, entregue à mercê de quem já não teme a justiça portuguesa.

Sobre o autor do artigo: Guilherme Rosado é investigador na UAlg, licenciado em Biologia Marinha e  mestre em Ciências Marinhas e Alterações Climáticas.

Leia também: Pela proteção dos menores: o fim da ideologia “woke” na saúde infantil | Por Guilherme Rosado

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Mucosite: um efeito secundário frequente no tratamento do cancro que exige atenção e prevenção

Os tratamentos utilizados no combate ao cancro, como a quimioterapia, a imunoterapia e a radioterapia, sobretudo quando aplicados na região da cabeça e pescoço, podem provocar vários efeitos secundários. Um dos mais frequentes e debilitantes é a mucosite, uma inflamação da mucosa da boca e da garganta que pode afetar os lábios, as gengivas e outras estruturas da cavidade oral.

A mucosite é considerada um dos efeitos secundários com maior impacto na qualidade de vida das pessoas em tratamento oncológico.

Nem todos os medicamentos utilizados no tratamento do cancro provocam mucosite, mas trata-se de um sintoma relativamente comum, que exige vigilância, prevenção e intervenção precoce.

Geralmente, o doente apresenta irritação da mucosa e úlceras semelhantes a aftas, que podem causar dor intensa ao mastigar, engolir ou mesmo ao beber líquidos.

A dor e o desconforto dificultam a alimentação e a fala, afetando não só o bem-estar físico, como o emocional do doente.

Apesar de existirem tratamentos para a mucosite, a prevenção continua a ser uma das estratégias mais eficazes. Manter uma boa higiene oral é fundamental, com escovagem dos dentes após as refeições e antes de dormir, utilizando uma escova de cerdas macias e uma pasta de dentes adequada para dentes sensíveis.

O uso de elixires sem álcool para bochechar após as refeições ajuda a manter a boca limpa, enquanto a hidratação dos lábios e da mucosa oral é essencial. Evitar o tabaco é igualmente recomendado, pois o fumo agrava a irritação da mucosa e atrasa a cicatrização.

Quando a mucosite já está presente, a alimentação deve ser adaptada para reduzir o desconforto e garantir uma nutrição adequada. Alimentos cremosos e fáceis de mastigar e engolir, como sopas, purés, batidos, fruta cozida, gelatinas, arroz e massa bem cozidos, bem como carne e peixe desfiados ou triturados, são opções a considerar.

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Os alimentos devem ser ingeridos à temperatura ambiente, evitando temperaturas muito quentes ou muito frias, e as refeições devem ser fracionadas ao longo do dia, com pequenas quantidades ingeridas várias vezes. A ingestão de água, entre 1,5 e 2 litros por dia, é fundamental, podendo ser consumida em pequenos goles durante as refeições para facilitar a deglutição. Em alguns casos, e se o tratamento permitir, a aplicação de frio na mucosa, como gelo ou gelados, pode aliviar a dor.

Por outro lado, devem ser evitados alimentos secos ou ásperos, como torradas, tostas, frutos secos e bolachas, bem como alimentos salgados, ácidos, cítricos ou muito condimentados. Bebidas alcoólicas, gaseificadas e com cafeína, como café e chá preto, também podem agravar a irritação da mucosa e devem ser reduzidas ou evitadas.

Nos últimos anos, o uso de produtos naturais na prevenção e no tratamento da mucosite tem sido alvo de investigação científica. O mel tem demonstrado resultados promissores, com evidência de redução da dor e da gravidade das lesões. Outros produtos naturais, como camomila, própolis, cúrcuma e aloe vera, apresentam algumas evidências de eficácia, mas ainda necessitam de mais estudos antes de serem integrados de forma sistemática na prática clínica.

É fundamental que os doentes informem a sua equipa de saúde ao primeiro sinal de mucosite oral. Para além das medidas de higiene, alimentação e cuidados gerais, pode ser necessária medicação específica para aliviar os sintomas e prevenir complicações.

A deteção precoce e o acompanhamento adequado permitem reduzir o impacto da mucosite, melhorar a qualidade de vida e garantir a continuidade dos tratamentos oncológicos com maior segurança e conforto.

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Politicamente (In)correto: A Democracia por adjudicação. Quem não tem ajustes diretos?

Os ajustes diretos, as avenças e os contratos sem concurso prévio voltaram a ocupar o espaço mediático.

Na verdade, nunca saíram dele.

Apenas regressam ciclicamente à superfície, como aquelas verdades incómodas que todos conhecem, mas sobre as quais poucos querem falar com excessiva frontalidade.

A questão é simples, que autarquia, empresa municipal, comunidade intermunicipal ou mesmo estrutura partidária não recorre a este mecanismo legal?

Tal como as cartas de amor de antigamente, os ajustes diretos parecem existir em todo o lado.

Uns assumem-nos com naturalidade, outros disfarçam-nos com uma criatividade burocrática digna de melhor causa.

Importa ser claro, o ajuste direto é um instrumento legal.

O problema nunca esteve na sua existência.

O problema reside no uso intensivo, recorrente e, por vezes, pouco escrutinado que dele se faz.

Falamos de muitos milhões de euros.

Talvez de milhares de milhões quando somados os contratos celebrados pelos 308 municípios, pelas 3.259 freguesias e pelo vasto universo de empresas municipais e intermunicipais que povoam a arquitetura administrativa portuguesa.

Um fluxo financeiro colossal que atravessa governos locais de esquerda, de direita e de todas as tonalidades ideológicas intermédias.

Neste domínio, as diferenças partidárias parecem dissolver-se com uma surpreendente rapidez.

A ideologia termina frequentemente onde começa a gestão do poder. O ajuste direto tornou-se uma espécie de língua franca da administração pública local, todos a criticam quando estão na oposição e quase todos a utilizam quando chegam ao poder.

Mas o verdadeiro problema não está nos contratos.

O busílis da questão encontra-se na perceção pública sobre aquilo que acontece para além deles.

A sociologia política ensina-nos que as democracias não sobrevivem apenas da legalidade dos seus atos.

Dependem igualmente da confiança dos cidadãos nas instituições.

E essa confiança é corroída quando a coincidência começa a parecer demasiado frequente para ser apenas coincidência.

Quando uma empresa ou um Cidadão celebra sucessivos contratos com uma autarquia e, simultaneamente, surge envolvido na promoção política do partido que governa essa mesma autarquia, o problema deixa de ser jurídico. Passa a ser ético.

Passa a ser político.

Passa a ser democrático.

Naturalmente, ninguém poderá impedir um empresário, um consultor ou um prestador de serviços de ter convicções políticas.

Vivemos numa democracia.

O problema surge quando a fronteira entre a prestação de um serviço e a fidelização de uma influência se torna difusa.

É nesse momento que o Cidadão comum começa a desconfiar.

E a democracia vive mal da desconfiança.

A antropologia do poder ensina-nos que as sociedades humanas tendem a reproduzir redes de reciprocidade.

Favores geram favores.

Lealdades geram recompensas.

Proximidades geram oportunidades. Não se trata necessariamente de corrupção.

Muitas vezes trata-se apenas da velha natureza humana a operar dentro das instituições modernas.

O resultado, porém, é semelhante, forma-se uma elite de proximidade que dispõe de vantagens competitivas dificilmente alcançáveis por quem não pertence ao círculo certo.

Mais preocupante ainda é a opacidade do financiamento político local. Enquanto as campanhas nacionais são alvo de maior escrutínio mediático e institucional, a realidade autárquica continua a viver em zonas cinzentas onde a fiscalização raramente acompanha a criatividade dos protagonistas.

Quando determinados grupos políticos conseguem mobilizar recursos, apoios, serviços, comunicação e influência provenientes de empresas “amigas”, os seus adversários entram na disputa em manifesta desigualdade de circunstâncias.

Não porque lhes falte competência ou apoio popular, mas porque lhes faltam as chaves de acesso às redes informais de poder.

A Democracia deveria ser uma competição de ideias.

Demasiadas vezes transforma-se numa competição de contactos.

Talvez seja apenas percepção minha.

Talvez tudo isto aconteça apenas no domínio da imaginação.

Talvez os ajustes diretos sejam sempre neutros, as avenças absolutamente inocentes e as coincidências apenas isso mesmo, coincidências.

Mas, se assim fosse, porque motivo tantos Cidadãos olham para estas situações com crescente ceticismo?

A legalidade é indispensável.

Contudo, uma Democracia saudável exige algo mais exigente do que a mera conformidade legal, exige legitimidade, transparência e distância crítica face aos interesses instalados.

Porque há uma verdade simples que o Direito não consegue resolver sozinho, nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo.

Talvez eu continue ingénuo.

Talvez continue a acreditar que o poder deve ser escrutinado, independentemente da cor partidária que o exerce.

Ou talvez seja apenas um Quixote sem Pança, insistindo em combater moinhos que, por coincidência, continuam sempre ligados à rede elétrica do poder.

Leia também: Politicamente (In)correto: O Algarve da hipocrisia – governaram, falharam, agora fingem | Por Francisco Moleiro

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Ensinar as crianças a cuidar da saúde da coluna desde cedo | Por Jorge Alves

No Dia Mundial da Criança, faz sentido lembrar que cuidar da saúde também se aprende. Tal como ensinamos as crianças a lavar os dentes, a ter uma alimentação equilibrada ou a praticar exercício físico, é igualmente importante ajudá-las a conhecer o próprio corpo e a estar atentas a sinais que podem indicar problemas de saúde. A saúde da coluna é um desses exemplos. Durante o crescimento, existem alterações que podem surgir de forma silenciosa e passar despercebidas durante meses. A escoliose é uma delas.

A escoliose é uma deformidade da coluna vertebral caracterizada por uma curvatura anormal da coluna. Surge mais frequentemente durante a infância e adolescência, especialmente nas fases de crescimento rápido. Na maioria dos casos, a causa é desconhecida, razão pela qual é chamada escoliose idiopática.

Muitas vezes, a escoliose não provoca dor, sobretudo nas fases iniciais. Por isso, a observação atenta por parte dos pais, familiares, professores ou profissionais de saúde é fundamental. Existem alguns sinais simples que devem despertar atenção: um ombro mais alto do que o outro, assimetria da cintura, uma omoplata mais saliente, inclinação do tronco ou diferença na altura das ancas. Em alguns casos, a alteração é mais evidente quando a criança se inclina para a frente.

A deteção precoce faz toda a diferença. Quando identificada atempadamente, a escoliose pode ser acompanhada e tratada de forma adequada, permitindo reduzir a progressão da deformidade e melhorar a qualidade de vida da criança ou adolescente. O acompanhamento por profissionais especializados é essencial para definir a melhor abordagem em cada situação.

É importante transmitir às crianças que estar atento ao próprio corpo não deve gerar medo, mas sim confiança e responsabilidade. Pequenos gestos de atenção podem ajudar a reconhecer alterações precocemente e facilitar o acesso aos cuidados necessários.

A campanha “Josephine Explica a Escoliose” surge precisamente com esse objetivo: sensibilizar famílias e população em geral para a importância da literacia em saúde e da deteção precoce da escoliose pediátrica. Através de uma linguagem simples e acessível, procura ajudar pais e filhos a reconhecer sinais de alerta e a compreender melhor esta condição.

Promover hábitos saudáveis, incentivar a atividade física e ensinar as crianças a cuidar da sua saúde desde cedo é um investimento importante no seu futuro. Porque crescer com saúde também passa por cuidar da coluna.

Leia também: Aos 102 anos, algarvia Gracinda Andrade continua a encantar gerações

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A agonia da democracia | Por José Figueiredo Santos

Há qualquer coisa de peculiar na democracia liberal contemporânea. Em teoria, o poder não pertence a ninguém; é um objeto transitório, disputado em eleições periódicas, onde os cidadãos decidem quem governa. Na prática, porém, o sistema parece viver obcecado por uma figura muito específica: o eleitor que muda de ideias.

Paradoxalmente, nada parece inquietar mais as lideranças partidárias do que o eleitor fiel, aquele que permanece décadas a votar no mesmo partido com a consistência de um relógio suíço. O cidadão que não vacila, não questiona e não se deixa seduzir por novas promessas é quase uma anomalia democrática. Afinal, para que serviriam as campanhas eleitorais, os debates televisivos, os slogans cuidadosamente testados e os programas apresentados em papel couché brilho, se todos mantivessem as mesmas escolhas de sempre?

Levada ao extremo, a lógica é irresistível. Se todos os eleitores permanecessem estáveis e resignados, bastaria realizar eleições uma única vez. Arquivava-se o resultado numa gaveta do Estado, distribuíam-se cópias pelos arquivos nacionais e seguia-se, com tranquilidade, rumo à eternidade política. Felizmente para os partidos, existem os indecisos — essa espécie protegida sem a qual boa parte da indústria eleitoral entraria rapidamente em colapso.

É por isso que cada mudança de voto é celebrada como uma pequena epifania democrática. O cidadão que durante quarenta anos não mudou de barbeiro, de marca de café ou de clube de futebol transforma-se subitamente num herói da renovação política quando decide trocar de cruzinha partidária. Os analistas analisam, os comentadores comentam e os estrategas partidários descobrem sinais históricos em oscilações que, muitas vezes, caberiam numa conversa de café.

A democracia moderna parece depender desta permanente mobilidade eleitoral. É necessário convencer os eleitores de que a mudança é indispensável, urgente e, de preferência, iminente. Daí o esforço quase épico dos partidos para arrancar os cidadãos do conforto dos seus hábitos. E assim se alimenta a esperança de que aqueles eleitores aparentemente incapazes de abandonar os chinelos, o roupão de domingo ou a chávena de café de cevada sejam tocados pela revelação súbita proporcionada por um cartaz eleitoral particularmente inspirado ou por um programa partidário cuja leitura rivaliza, em emoção, com a dos manuais escolares digitais.

Não admira, por isso, que muitos observadores já falem de um voto “à la carte”, mais volátil e personalizado do que o antigo voto de dever ou de pertença ideológica. O eleitor-consumidor escolhe, experimenta, abandona e regressa, como quem percorre as prateleiras de um supermercado político cada vez mais concorrencial.

Mas esta mobilidade não trouxe necessariamente maior confiança. Pelo contrário. Entre eleição e eleição acumulam-se ilusões, desilusões e frustrações. Em praticamente todas as democracias ocidentais cresce a desconfiança em relação aos políticos. Incapazes de cumprir promessas, de resolver problemas estruturais ou de responder às inquietações mais imediatas dos cidadãos, os responsáveis políticos são frequentemente vistos como especialistas da palavra abundante e da eficácia escassa.

A suspeita agrava-se quando se instala a perceção de que a principal preocupação dos governantes não é governar, mas cuidar dos seus interesses e da sobrevivência eleitoral. As sondagens substituem a bússola, a popularidade ocupa o lugar da estratégia e o próximo ciclo eleitoral torna-se mais importante do que a próxima geração.

Neste contexto, o desencantamento político alastra. Os partidos já não moldam as identidades dos seus eleitores como outrora, as lealdades enfraquecem e os votos de protesto multiplicam-se. Cresce a disponibilidade para punir elites consideradas incompetentes, cínicas ou excessivamente agarradas aos seus privilégios.

É neste terreno fértil que o populismo encontra espaço para prosperar. A rejeição das instituições tradicionais intensifica-se, enquanto discursos simplificadores, por vezes xenófobos, conquistam uma normalidade que há poucas décadas pareceria impensável. Ainda assim, não faltam partidos que insistem em interpretar os conflitos políticos atuais através de categorias herdadas de um mundo desaparecido, como se os problemas do século XXI continuassem a caber integralmente nos esquemas mentais do período entre guerras.

O resultado traduz-se numa política desacreditada e numa democracia permanentemente submetida a exame. Vivemos numa época hipermoderna, individualista e profundamente desconfiada, onde as expectativas são elevadas e a tolerância para a frustração é cada vez menor.

Charles de Gaulle dizia que “toda a política que não promete sonhos está condenada”. A frase continua atual. A dúvida é outra: quem ainda acredita nos sonhos que a política promete? E, sobretudo, onde se encontra hoje o fôlego das ambições políticas, a ambição capaz de as transformar em algo mais do que um slogan de campanha?

Leia também: O devir da indiferença | Por José Figueiredo Santos

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Famílias que acolhem: o amor que transforma – Acolhimento Familiar | Por Neusa Patuleia e Catarina Silva Almeida

O que é o acolhimento familiar?

O acolhimento familiar tem como principal missão a promoção dos direitos e garantias das crianças, consagrados na Convenção sobre os Direitos da Criança. “Uma criança deve viver num ambiente familiar, num clima de felicidade, amor e compreensão, para que seja possível realizar, na sua plenitude, todos os seus direitos.”

Quando uma criança que, por motivos de negligência, abandono ou violência, precisa de ser protegida e não pode permanecer com a sua família de origem, podem ser aplicadas diferentes respostas no âmbito do sistema de promoção e proteção. Entre essas respostas, quando se torna necessária a sua colocação fora do contexto familiar, existem duas principais alternativas: o acolhimento residencial ou o acolhimento familiar.

NEUSA PATULEIA – Psicóloga e vogal da Direção da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O acolhimento familiar é, assim, uma medida de promoção e proteção, de carácter temporário, prevista na lei, que visa garantir à criança um ambiente familiar seguro, afetivo e estruturado, até que possa regressar à sua família de origem ou, quando tal não seja possível, ser encaminhada para uma solução de vida estável, como a adoção, sempre em função do seu superior interesse.

Em Portugal, o acolhimento familiar foi reforçado e regulamentado pelo Decreto-Lei n.º 139/2019, que estabeleceu o regime de execução desta medida e procurou promover a sua aplicação, contrariando a predominância do acolhimento residencial. A implementação deste modelo foi progressivamente operacionalizada a nível nacional, com especial impulso a partir de 2022.

Porque é tão importante?

A fase inicial da vida é extraordinariamente relevante para a arquitetura do cérebro em maturação, tendo impactos profundos na saúde e no desenvolvimento físico e cognitivo, na segurança emocional e vinculação, na construção da identidade pessoal e cultural e no desenvolvimento de competências da criança.

É no contexto familiar que a criança constrói as bases de uma vida mental organizada e aprende a relacionar-se afetivamente, a partir da experiência de ser reconhecida, cuidada e investida emocionalmente.

Os efeitos nefastos da carência ou privação, total ou parcial, de cuidados parentais, resultantes de uma interação insuficiente entre a criança e a sua figura cuidadora principal, seja pela ausência dessa figura, seja pela descontinuidade ou insegurança das relações estabelecidas, podem ser significativamente atenuados quando é proporcionada à criança uma figura de vinculação alternativa. Na ausência da sua família de origem, a criança pode estabelecer uma relação estável e reasseguradora com cuidadores de substituição, minimizando a experiência de privação e os potenciais impactos no seu desenvolvimento.

CATARINA SILVA ALMEIDA – Psicóloga na Fundação António Aleixo

As crianças precisam de muito mais do que um teto, alimentação e cuidados de higiene. Precisam de afeto, estabilidade e relações significativas. A investigação científica e a experiência prática demonstram que, sempre que possível, crescer num ambiente familiar é mais favorável ao desenvolvimento emocional, social e cognitivo da criança, particularmente nos primeiros anos de vida.

Em contexto institucional, ainda que com profissionais dedicados e afetivos, é mais difícil assegurar relações individualizadas e a existência de uma figura de referência estável. Já no acolhimento familiar, a criança pode contar com um rosto que a reconhece, uma voz que a conforta e um colo que a ampara. É essa continuidade relacional e esse cuidado sensível que fazem a diferença, permitindo-lhe reconstruir a confiança no outro – e em si própria.

Quem pode ser família de acolhimento?

Pessoas com sentido de missão, com disponibilidade emocional e com vontade genuína de fazer a diferença.

Pode ser um casal ou uma pessoa singular, com ou sem filhos, desde que preencha os requisitos legais aplicáveis e esteja disponível para formação e acompanhamento por parte das entidades de enquadramento do acolhimento familiar.

Principais critérios para ser família de acolhimento:

• Residir em território nacional
• Ter idoneidade moral e condições de saúde física e psicológica adequadas
• Garantir estabilidade emocional e relacional
• Possuir disponibilidade de tempo para a integração de uma criança ou jovem no contexto familiar
• Dispor de condições habitacionais adequadas e estáveis
• Não possuir antecedentes criminais incompatíveis com o exercício das responsabilidades de acolhimento, nomeadamente por crimes contra crianças, jovens ou por violência doméstica
• Pelo menos um dos candidatos ter idade igual ou superior a 25 anos

Como ser família de acolhimento?

O processo de candidatura e certificação para família de acolhimento é exigente e implica avaliação rigorosa por parte das entidades competentes, incluindo formação específica, avaliação psicossocial e acompanhamento técnico. Mais do que boa vontade, esta medida exige estabilidade, preparação e capacidade para responder de forma consistente às necessidades de crianças em situação de especial vulnerabilidade.

Acolher é ajudar a sarar feridas invisíveis

Acolher uma criança é um ato de responsabilidade e de humanidade. Significa reconhecer que, mesmo não sendo possível alterar o passado, é possível oferecer um presente mais seguro e um futuro com maior previsibilidade e esperança. É contribuir para que cada criança cresça a sentir-se valorizada, respeitada e emocionalmente segura.

Dar visibilidade ao acolhimento familiar é contribuir para uma sociedade mais consciente da importância de garantir a cada criança o direito fundamental a crescer num ambiente seguro, estável e afetivamente protetor.

Mais informações disponíveis no site da Segurança Social:
https://www.seg-social.pt/ptss/pssd/menu/familia/apadrinhamento-acolhimento/familia-acolhimento-criancas-jovens

Leia também: Entre o medo e a curiosidade: o que nos atrai nas histórias de crime real? | Por Neusa Patuleia

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Movimento. O melhor remédio para as suas costas | Por Hugo Aleixo

Chegou o bom tempo e com ele voltam as caminhadas ao final do dia, o padel à terça-feira à noite, o golfe ao sábado de manhã, as primeiras idas à praia. A vida sai de casa. E todos os anos, sem falhar, voltam também ao meu consultório os pacientes com dores nas costas. Muitos deles convencidos de que a solução é parar. A mensagem que lhes deixo em consulta é a mesma que quero deixar aqui. Não fique em repouso. Mexa-se.

O mito do repouso absoluto enquanto cura para a dor lombar é dos mais resistentes com que lidamos. A evidência científica é clara há mais de duas décadas. Salvo em situações muito específicas de lesão aguda, ficar parado faz precisamente o contrário do que se pensa. Prolonga a dor, enfraquece a musculatura de suporte da coluna e atrasa a recuperação. O corpo humano foi feito para se mexer e quando deixa de o fazer, paga a fatura.

O movimento regular continua a ser o melhor medicamento disponível para a coluna vertebral. Não tem efeitos secundários, não tem preço e está ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer idade. Caminhar, fazer yoga, pilates ou hidroginástica são excelentes formas de manter a coluna saudável e prevenir o aparecimento de dor lombar.

Há aqui, contudo, um ponto que escapa à maioria das pessoas e que faz toda a diferença na prática. Caminhar é importante, mas não chega. Para uma coluna bem protegida, é preciso incluir trabalho de força nos músculos da cintura para cima, sobretudo nos que estabilizam o tronco. São esses os músculos que funcionam como o cinto natural da coluna. Quando estão fortes, ela está protegida. Quando estão fracos, qualquer esforço do dia a dia pode passar a doer.

Para quem já vive com dores nas costas, a recomendação não muda muito, embora exija algum cuidado adicional. O movimento deve ser adequado e progressivo. Retomar a atividade física depois de meses parado não pode ser um regresso ao ritmo de há cinco anos. Convém começar devagar, escolher modalidades de baixo impacto, ouvir o corpo e procurar acompanhamento profissional sempre que a dor não cede ou começa a limitar o dia a dia.

Convém ainda desmontar outra ideia muito comum em consulta. Ter dor lombar não significa, na maior parte dos casos, ter uma lesão grave que exija cirurgia. A maioria das dores lombares resolve-se com movimento, tratamento conservador e, quando faz sentido, fisioterapia. A cirurgia da coluna tem hoje critérios bem definidos e, quando é mesmo necessária, é feita com técnicas minimamente invasivas que tornam a recuperação muito mais rápida do que era há alguns anos. Continua, ainda assim, a ser a última linha. Nunca a primeira.

Aproveite o bom tempo. Saia de casa. Caminhe, ande de bicicleta, vá à praia, brinque com os filhos no parque. Reserve dois ou três dias por semana para um trabalho mais estruturado de força. Mexa-se pela sua saúde. Não importa a modalidade ou o desporto, mexa-se.

A campanha Olhe pelas Suas Costas, que há mais de uma década promove a literacia em saúde da coluna em Portugal, tem trabalhado este princípio. Prevenir é sempre melhor do que tratar, e o movimento é a primeira linha da prevenção.

A sua coluna não precisa de descanso. Precisa de uso.      

Para mais informações, consulte o website da Campanha Olhe pelas suas Costas: https://olhepelassuascostas.pt/

Leia também: O dia em que a doença chegou antes dos sintomas | Por Isabel Duarte

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Tornar o lúpus visível | Por Rita Mendes

O lúpus é uma doença autoimune que pode afetar diferentes órgãos e sistemas, com intensidade variável de pessoa para pessoa.

Ainda pouco conhecida, manifesta-se de muitas formas: pode causar cansaço, dor e alguma imprevisibilidade, mas também pode ser reconhecida, acompanhada e controlada. Com informação credível, diagnóstico atempado e acompanhamento multidisciplinar, é possível viver melhor com a doença e planear o futuro com mais confiança.

Em Portugal, ainda se fala pouco sobre a doença. Esse silêncio atrasa muitas vezes o reconhecimento de sinais e adia o acesso aos cuidados certos. Dar visibilidade à doença significa encurtar o caminho até ao diagnóstico, promover consultas coordenadas entre especialidades e valorizar o que não se mede apenas com exames: o impacto no dia a dia, no trabalho, na família e no bem-estar emocional.

A Associação de Doentes com Lúpus, fundada em 1992, existe para estar ao lado de todas as pessoas que dela precisam. Informamos, apoiamos e orientamos quem vive com lúpus e respetivas famílias. Em articulação com profissionais de saúde, familiares e toda a comunidade interessada nesta área, queremos facilitar o acesso ao aconselhamento, esclarecer dúvidas e promover a literacia em saúde. Quando doentes, familiares, equipas clínicas, farmacêuticos e decisores remam na mesma direção, o percurso torna-se mais simples, os sintomas são identificados mais cedo e as decisões terapêuticas ganham qualidade.

A apresentação clínica do lúpus pode ser altamente variável, desde manifestações ligeiras até formas muito graves, com envolvimento frequente dos sistemas cutâneo e musculoesquelético e podendo afetar um ou vários órgãos vitais (rins, coração, pulmões e sistema nervoso). O curso da doença pode alternar entre períodos de maior atividade e estabilidade, mas não define a totalidade da vida de quem vive com a doença.

Existem estratégias eficazes de monitorização, tratamentos cada vez mais personalizados e rotinas de autocuidado que fazem a diferença. Importa ainda sublinhar que reconhecer o impacto invisível — fadiga, dor, incerteza — é tão importante quanto olhar para os resultados dos exames.

O Dia Mundial do Lúpus, que se assinalou a 10 de maio, é uma oportunidade para escutar histórias, partilhar conhecimento e reforçar compromissos. Mais do que uma data no calendário, é um convite à ação: encurtar tempos de diagnóstico, garantir acesso equitativo a cuidados especializados e integrar a pessoa com lúpus no centro das decisões. Com políticas públicas eficazes e uma comunidade informada, é possível transformar invisibilidade em compreensão e cuidado.

Se quiseres saber mais sobre esta doença, ouvir testemunhos de quem a vive na primeira pessoa, conhecer os seus sintomas, formas de diagnóstico, tratamentos e formas de apoiar e compreender melhor quem vive com lúpus, visita o website tenholupus.pt e o website da Associação de Doentes com Lúpus: www.lupus.pt.

Encontra informação validada, recursos úteis e pontos de contacto. Porque a informação é o primeiro passo para deixarmos de olhar e começarmos verdadeiramente a ver — e, sobretudo, a cuidar. Vamos tornar o lúpus visível.

Leia também: O dia em que a doença chegou antes dos sintomas | Por Isabel Duarte

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Solidão, envelhecimento e saúde: o problema que muitas análises não mostram

Há pessoas que vão envelhecendo sem fazer grande ruído. Continuam a abrir a janela de manhã, a cumprir pequenas rotinas, a ir à farmácia, a responder “vai-se andando” quando alguém pergunta como estão. À superfície, parece que tudo se mantém funcional. A tensão arterial pode até estar controlada, a diabetes mais ou menos vigiada, a medicação organizada numa caixa semanal em cima da mesa.

E, no entanto, por detrás dessa aparência de estabilidade, instala-se por vezes outra forma de fragilidade, mais difícil de medir e mais fácil de ignorar: a solidão.

Não falo apenas de viver sozinho. Há quem viva sozinho e se sinta inteiro, ligado, acompanhado pela família, pelos vizinhos, por um grupo, por uma rotina com sentido. E há quem esteja rodeado de gente e passe os dias numa espécie de ausência relacional difícil de explicar.

A solidão, nessa forma mais funda, não é a falta de pessoas à volta. É a falta de presença com significado. É não ter com quem partilhar o dia, a preocupação, a memória, a pequena conquista, o medo banal que só parece menor quando é dito a alguém.

Durante muito tempo, esta realidade foi tratada quase como um assunto de foro íntimo, mais próximo da tristeza do que da saúde. Como se fosse apenas um desconforto emocional, uma consequência quase inevitável da idade, da viuvez, da reforma ou da saída dos filhos de casa. Mas essa leitura é curta.

A solidão prolongada desgasta. Não aparece numa análise de rotina, não se ausculta com um estetoscópio, não surge com a nitidez de uma fratura ou de uma infeção, mas vai deixando marca. No humor, no sono, na energia, na motivação para sair, na vontade de cozinhar, na adesão à medicação, na forma como se tolera a dor, na rapidez com que o mundo começa a encolher.

É precisamente isso que a torna tão difícil de enfrentar. A medicina está habituada a procurar aquilo que se mede bem. Valores, imagens, sinais, alterações objetivas. E isso é indispensável. Mas envelhecer não é apenas atravessar uma sucessão de parâmetros clínicos. É também perder e reconstruir vínculos, adaptar-se a limitações, reorganizar o sentido dos dias. Quando essa dimensão falha, o impacto não se limita à esfera emocional. O corpo sente-o. A mente sente-o. A autonomia sente-o.

Muitos idosos não dizem “estou sozinho”. Dizem que andam mais cansados. Que dormem pior. Que não lhes apetece sair. Que a comida já não sabe ao mesmo. Que têm menos força. Que se esquecem mais. Que os dias são todos parecidos. Às vezes, o sofrimento chega à consulta disfarçado de sintoma vago. E nem sempre o sistema tem tempo, disponibilidade ou sensibilidade para ler o que está por trás. O que parecia ser apenas cansaço pode ser desânimo. O que parecia falta de apetite pode ser vazio. O que parecia desleixo pode ser desistência lenta.

Num país que envelhece, isto não devia ser uma nota de rodapé. Devia estar muito mais no centro da conversa. Falamos, e bem, de demência, de fragilidade, de dependência, de polimedicação, de listas de espera, de cuidados continuados. Mas falamos menos sobre a erosão silenciosa da vida relacional. Menos da velhice passada entre quatro paredes. Menos da perda de lugar social. Menos do efeito cumulativo de dias inteiros sem conversa verdadeira, sem toque, sem convite, sem escuta. Como se isso fosse triste, sim, mas secundário. Não é.

Há uma tendência perigosa de naturalizar a solidão no envelhecimento. Como se fosse expectável. Como se, a partir de certa idade, a vida tivesse inevitavelmente de se tornar mais estreita, mais silenciosa, mais ausente. Essa normalização é profundamente injusta. Porque envelhecer não devia significar desaparecer aos poucos do campo de atenção dos outros. Não devia significar tornar-se um corpo clinicamente seguido, mas socialmente esquecido.

A saúde, quando pensada a sério, é mais do que o controlo de doenças. É também vínculo, participação, reconhecimento, continuidade humana. Um idoso que tem com quem falar, a quem telefonar, com quem almoçar, a quem fazer falta, não tem apenas mais companhia. Tem mais proteção. Mais estrutura. Mais motivo para se cuidar. Mais razão para sair da cama e continuar a ocupar espaço no mundo. Às vezes, é nesse plano invisível que começa a diferença entre aguentar e viver.

Talvez, por isso, a resposta não possa ficar toda do lado da medicina, embora a medicina tenha a obrigação de ver melhor este problema. A resposta começa nas famílias, mas não acaba nelas. Passa pelos vizinhos, pelas juntas, pelas autarquias, pelas associações locais, pelos centros de saúde, pelas igrejas, pelas farmácias, pelos transportes, pelos espaços públicos, pelas redes informais que ainda vão resistindo apesar de tudo. Passa, no fundo, por decidir se queremos ser uma sociedade que prolonga a vida apenas em anos ou também em presença, dignidade e pertença.

A solidão não tem cor num relatório laboratorial. Não sobe nem desce numa folha de resultados. Mas adoece. E talvez uma sociedade se revele menos pela sofisticação dos exames que consegue fazer e mais pela capacidade de não deixar ninguém envelhecer como se já tivesse saído, em silêncio, do lado de dentro da vida.

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Três mortes que nos enlutam

No curto espaço de uns dias três falecimentos de quem serviu Faro e o Algarve de uma forma exemplar, dedicada e inestimável, vieram estremecer o nosso íntimo.

Às suas sempre lembradas memórias prestamos o mais vivo dos sentimentos de gratidão por tudo o que deram em suas honradas vidas pela comunidade em que estamos insertos.

Na sua Alcoutim faleceu o histórico dirigente do PCP (Partido Comunista Português), Carlos Brito, que desde bem novo fez parte desta formação partidária, dando-lhe, enquanto seu militante e dirigente (sairia por acordo consigo mesmo) toda a inteligência, vocação e trabalho, de que era inegável possuidor. Bem cedo foi eleito para a Assembleia Constituinte, pois era a quando do 25 de Abril de 1974 e, claro na clandestinidade seu delegado em Portuga. Após o funeral da Igreja da Misericórdia, em Alcoutim, onde os restos mortais de Carlos Brito estiveram em constante vilegiatura vieram as mesmas para o Crematório de Faro, como que num adeus à capitalidade sulina, cidade que muito amava.

Depois foi a morte de José Costa, o recém eleito presidente para segundo mandato de uma das mais históricas agremiações farenses, o Clube de Futebol «Os Bonjoanenses», com um notável contributo para a cultura, o desporto amador e o recreio de Faro. Filial dos azuis de Lisboa, o C. F. Os Belenenses, sediado no popular Bairro do Bom João o saudoso José Costa era, há várias década, dirigente de «Os Bonjoanenses», a que imprimiu um inusitado dinamismo e incremento.

«Morreu o homem». Parafraseando o que foi dito a quando da morte de El-Rei D. João II, o Príncipe Perfeito, pudemos usá-lo a propósito do adeus do Dr. José Vitorino, destacada figura da vida pública e política do Algarve e do País. Natural da Conceição de Faro, onde residia, e por motivo de progressiva doença, se afastara de qualquer actividade, o saudoso amigo, com quem tivemos muitas discordâncias, que nunca afectaram a nossa amizade, fez o ensino liceal em Faro, após o que alcançou o título de Engenheiro Técnico Agrário (Escola de Évora) e licenciou-se em Ciências Económicas e Financeiras, vindo a exercer funções em Lisboa (Seguros) e no Algarve (António Neves Pires). Foi um dos fundadores do PPD (Partido Popular Democrático), depois PSD (Partido Social – Democrata), o que valeu o «apedrejamento» com o saudoso Dr. Cristóvão Norte num comício realizado no Salão Luís Parque, a que se seguiu a destruição da sede na Rua Lethes, daquela formação partidária. Foi sucessivamente eleito deputado, função interrompida pelo desempenho do cargo de Governador Civil e de Presidente da Câmara Municipal de Faro, entidade que o distinguiu com a «Medalha de Mérito – Grau Ouro». Criou diversas associações, entre as quais a CEAL e a ALGFUTURO. Uma lembrança que nunca se esquece, um dos mais ilustres farenses e algarvios, cuja memória perdurará pelos tempos fora, a o do amigo, porque verdadeiramente o era, o hoje sempre recordado dr. José Vitorino.

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Conto

Na tarde de quarta-feira, dia vinte e quatro de novembro de dois mil e dez, o outono mostrava-se generoso ao ensolarar sem máculas o céu de Baía dos Lobos. No pátio do prédio, balões multicolores enchidos a hélio, a Dora Exploradora de sorriso desenhado na toalha, nos copos e nos guardanapos, doces, brigadeiros e salgadinhos feitos com capricho por Guete e Lucinha durante toda a manhã, refrigerantes, pinhatas suspensas e confetes tentavam ludibriar a dura realidade dos dias comuns.

Os olhinhos brilhantes de Luana postos no imaginário do número cinco insuflado esvoaçando sobre si, aqueciam o peito da mãe a ponto de lhe derreter o coração de cera. Um cinco dourado que balançava ao ritmo leve da brisa, preso à mesa do bolo por um fio de nylon que fingia não estar lá – um cinco dourado que, por instantes de transe involuntário, transportou Lúcia até mil novecentos e oitenta e nove, revisitando-se nas ruas de Dançolândia com a idade que a filha agora completava, de mãozinhas presas à pipa pelos mesmos fios invisíveis com que naquele preciso momento amarrava os balões da festa. O amor despertado por Luana era a máscara de oxigénio que lhe permitia sobreviver ao vácuo de afinidades a que fora submetida ao longo da vida, pela ausência do pai que nunca existiu e da mãe que lhe falecera no auge da infância.

Benzeu-se como prova de gratidão ao destino – por ser mãe – e regressou a si para receber os amigos recém-chegados.

A pequena Beatriz vinha alegre pela mão de Verónica, colega de Lúcia e Guete na Hamburgueria, e redobrou o contentamento ao ver a aniversariante. Juntas correram pelo pátio exibindo coreografias de piruetas meticulosamente ensaiadas, ostentando a cumplicidade que as tornava inseparáveis.

O pátio foi ocupado pelos parcos colegas da hamburgueria que tinham conseguido folga nessa tarde e alguns amigos da igreja de domingo – parte deles com filhos de idades próximas à da pequena Luana.

A possibilidade de fugir ao real e habitar a fantasia, ocupar o lugar de princesa num reino protegido de todos os males, deixava-a tão feliz. Tomara um sorriso assim permanecesse cativo em todos os rostos da infância, repelindo em definitivo os crimes contra ela cometidos. Tomara se privilegiasse essa ternura como regra desprovida de exceções.

Umas crianças jogavam à bola, outras rebentavam pinhatas, outras ainda improvisavam no Karaoke ou desapareciam e apareciam no esconde-esconde quando se ouviu o cantar estridente dos pneus do carro de Miguel.

Luana, ao reconhecer aquele som, trepou instintivamente para o colo de Lúcia, enquanto meninos e meninas corriam assustados para abraçar as pernas dos pais e das mães, na intenção de se protegerem da atrocidade que lhes boicotava a brincadeira.

Com que então, Gritava a ponto lhe saltarem as veias pelo pescoço, A minha filha faz anos e ninguém me convida para a festa, não me digas que a cerveja não chega para todos, Lúcia.

Miguel, você sabe muito bem que esse final de semana a menina estará com você e vocês terão oportunidade de comemorar também, vai embora, estou te pedindo, por favor, não estrague mais um dia da vida da sua filha, ela não merece, vai embora daqui, Miguel.

Indiferente, virou-se para Luana e continuou, Este fim de semana o pai vai-te preparar a melhor surpresa da tua vida, porque tu sabes bem que o pai te ama e a mãe não presta, não sabes, minha filha, o pai vem-te buscar no sábado e vamos à Disney, queres ir à Disney com o papá, queres.

Guete, que já assistira de perto a violências anteriores de Miguel, não conteve a fúria, pegou no banco de cantos pontiagudos à sua frente e lançou-o contra a cabeça dele, fazendo-o recuar perante a evidência do perigo.

Incapaz de pensar nas consequências do impulso, depois de lhe furar a testa com a quina enferrujada, ainda o seguiu até ao carro, Vai embora, seu ogro, seu sem vergonha, seu nojento de merda, você não é homem não é nada, seu demónio, covarde que só sabe crescer em cima de criança, some daqui ou eu te mato na frente de todo o mundo, eu vou para o xilindró mas te garanto que você não machuca mais esta menina.

Tremendo-se por inteiro – suado, sangrado e de pupilas dilatadas -, já refundido dentro do carro, disse por fim, Prepara-te que é hoje que a polícia te bate à porta, ou te afastas da minha filha ou tens os dias contados pelos dedos de uma mão.

E arrancou, deixando para trás um rasto de terror, desproteção e injustiça, que se enraízaria irreversivelmente no mundo interior daquela criança. Uma ferida incicatrizável e para sempre exposta na epiderme dos seus afetos.

(próximo capítulo: edição 11 de junho)

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Depois do silêncio

Há quarenta anos, talvez um pouco mais, aquela avenida era ainda uma estrada de terra batida. O pó levantava-se devagar atrás dos carros raros, as vozes quase que se conheciam pelo nome e o silêncio não era ausência: era paisagem. Havia ruído, claro, mas um ruído humano, proporcional às horas e às necessidades. O mundo ainda não tinha aprendido a temer o vazio, ou a tomar consciência da presença deste.

Muitos anos depois veio a pandemia. E com ela, um silêncio estranho, quase clínico, assustado. As cidades ficaram suspensas e à deriva. Pela primeira vez em décadas, muita gente ouviu o som da própria respiração dentro de casa. Houve quem descobrisse o desconforto de estar consigo mesmo.

Outros encontraram nele uma espécie de revelação. Mas o silêncio, quando se prolonga, torna-se também um espelho, e nem todos suportam olhar demasiado tempo para dentro.

Talvez por isso o tempo atual da pós-pandemia tenha regressado com esta violência sonora. Como se a sociedade inteira tivesse decidido compensar o silêncio imposto, a falta de movimentos e o tempo perdido através do excesso. A avenida, outrora espaçosa até no silêncio, transformou-se numa montra permanente de presença. E de presença ruidosa que também se faz ver. Não pode haver pausa. Não pode haver quietude. O silêncio passou a ser confundido com abandono, fracasso ou invisibilidade.

As motos são talvez o símbolo mais evidente desta nova condição. Muitas surgem já alteradas de propósito, preparadas para romper o ar como uma declaração de existência. Não basta passar: é preciso ser ouvido. Há ali qualquer coisa de profundamente social e psicológica. Muitos dos que agora aceleram avenida acima talvez tenham passado décadas sem grande reconhecimento, sem estatuto, sem palco. O ruído oferece-lhes identidade instantânea. Durante alguns segundos, todos olham. Todos sabem que estão ali.

E qualquer crítica ao excesso sonoro é passível de ser recebida não como um pedido de convivência, mas como ataque pessoal. Porque, no fundo, não se está apenas a questionar uma mota; está-se a questionar uma afirmação de existência. Num tempo em que tantos vivem emocionalmente precarizados, qualquer tentativa de limite é interpretada como humilhação ou ameaça – a lembrar os limites da época pandémica? Daí as retaliações subtis, os ressentimentos silenciosos, as pequenas agressividades do quotidiano.

Ao mesmo tempo, regressaram as marcas ostensivas, os símbolos rápidos de prosperidade, as aparências de riqueza. Também elas fazem barulho, ainda que sem som. O consumo tornou-se linguagem emocional. Usa-se o objeto para produzir impacto, como se cada pessoa carregasse uma necessidade urgente de provar que venceu alguma coisa – mesmo que nem saiba exatamente o quê. O ruído já não é apenas acústico; é visual, social, performativo.

E voltaram também as filas. Curiosamente, as filas dos anos 80 regressam agora não por escassez material, mas por excesso de circulação humana? Filas para consumir, para fotografar, para participar, para não ficar de fora. A experiência contemporânea parece marcada por um medo profundo de desaparecer do movimento coletivo.

As obras espalhadas pelas cidades ocidentais encaixam perfeitamente neste quadro. Constroem-se prédios, remodelam-se espaços, perfuram-se ruas, como se a civilização tivesse horror à imobilidade. O martelo pneumático tornou-se banda sonora permanente. Tal como a música imposta em cafés, lojas, ginásios, esplanadas e elevadores. Hoje, quase nenhum espaço público aceita o silêncio como possibilidade legítima. O som ambiente tornou-se uma anestesia coletiva.

E depois há a velocidade. A fala acelerada, quase em verborreia. As opiniões prontas. A necessidade de responder imediatamente a tudo. Todos parecem especialistas instantâneos de todas as matérias.

Como se parar para pensar fosse já um sinal de fraqueza intelectual. A pausa, importante momento de ponderação, desapareceu do raciocínio e da conversa.

Talvez porque a pandemia tenha mostrado algo insuportável para o nosso tempo: que, quando tudo abranda, emerge aquilo que fomos adiando sentir, pensar, ver. E assim, parece que o corpo social reagiu como um sistema nervoso hiperativado. Um enorme organismo coletivo incapaz de regressar à quietude sem ansiedade.

No fundo, esta avenida já não é apenas uma avenida. É um retrato do nosso tempo: uma civilização exausta do silêncio, aterrorizada pela introspeção e viciada em estímulos constantes para não ter de escutar o que permanece por resolver dentro de si.

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Três breves questões

A sério, que tive que puxar pela cabeça para me lembrar o que fazia recordar a publicidade da FNAC, em que uma Alexandra Lencastre (percebi de quem se tratava, só à terceira visualização) lembrava que era tarde e o melhor seria não mandar mensagens no telemóvel, mas meter na cama Fernando Pessoa (o princípio será, um escritor de cada vez) obviamente em livro, parodia ao “Na cama com…” (anos noventa na SIC, vinte e sete episódios), como reparei depois. Não sei qual foi a ideia de dar a tudo aquilo um ar decadente, mas se não era para parecer, falharam em toda a linha. A publicidade parece-me muito desajustada, mas talvez fosse o que procuravam. Penso, no entanto, que falhar em toda a linha, pode funcionar ao contrário, na lógica do quanto pior, melhor.

Os observatórios de tudo e mais alguma coisa descobriram que, em Portugal, uma em cada sete crianças pobres passa fome. E eu que pensava que existiam famílias pobres e não crianças pobres, ou também existirão famílias ricas em que as crianças são pobres e ainda (o que tem que ser tem muita força), famílias pobres em que as crianças são ricas? Esta ideia de separar as crianças das famílias (para no fundo dar os mesmos resultados), terá sido ideia de quem? Provavelmente daqueles institutos que ganham à peça. Ou, falando em crianças pobres a malta toma mais atenção? Não sei, mas a menos que me elucidem não vejo a relevância das conclusões do estudo.

Lateralmente, só porque o li numa entrevista num jornal nacional, outros problemas e outros dados, vindos de outro observatório ou instituto, tudo muito psicológico e sociológico, que passaram na televisão, mas também na imprensa escrita: a questão do assédio no trabalho. Os números que avançaram eram poderosos, tudo em desfavor dos nossos patrões e de muitas das chefias intermédias, dentro da empresa. Para uma das autoras, entrevistada no “Público”, a questão do assédio era grave, mas já existia há muito tempo, só os assediados não tinham percebido. Eu compreendo o ponto de vista; esse tipo de relação de trabalho em que uns pressionam os outros de uma forma pouco lícita só agora parece ser nomeada. Mas penso haver aqui um pouco de política a mais.

Os tempos mudam e a natureza das coisas também. Não se pode comparar épocas sem perceber que eramos muito diferentes há sessenta anos. Talvez se pudesse pensar que uma criatura que não entende estar a ser assediada é porque, provavelmente não o está a ser, porque esse será, talvez o cerne do problema, Além de que não se pode ler uma sociedade de há setenta anos segundo os princípios de agora. Mas isso sou eu a assediar os meus quatro leitores.

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